sábado, 1 de janeiro de 2011

Intróito Subaquático


[...]

Sentada na areia, próxima a margem do mar, está uma bela jovem. De olhos fechados, sonhando. Em um mundo distante, as ondas se quebram em meio ao mar. As gaivotas passeiam sobre ele, sem pousar em nenhum lugar. As ondas mudam, as gaivotas são sempre as mesmas. Ela ouve, lá no fundo, seu nome. Ela ouve seu nome ecoando das profundezas . "Arturia... Arturia... Arturia..."

- O som de duas fortes batidas na porta - (Toc! Toc!)

[Uma voz masculina do outro lado da porta]: - Arturia! Você já está acordada?!

[Arturia]: - Agora estou. Você acaba de interromper meu sonho.

Ela fica sentada na cama para pensar um pouco sobre o sonho que acabara de ter, ela acha estranho porque não é de seu feitio sonhar. Então lentamente levanta-se da cama, dá uma boa espreguiçada, põe seu vestido branco, o casaco azul, arruma seu cabelo fazendo um coque, molha o rosto numa pequena vasilha de água e vai até a porta.

[Arturia]: - Otav! O que você quer tão cedo da manhã?

[Otav]: - Não lembra, Arty? Hoje é o dia em que me caso, ainda temos coisas para fazer. Precisamos falar com sua amiga, ela ficou de nos entregar o buquê ainda hoje. Vamos, tenho pressa.

Otav, um adulto jovem no ápice de sua forma física, é loiro, usa o cabelo dividido ao meio. Tem sobrancelhas grossas e um olhar profundo. Mantém sempre a barba bem feita, como fazia seu pai. É alto, possui uma fronte vistosa e uma expressão amargurada de quem já sofreu o efeito de algumas eras sobre seus ombros. Tentou servir as tropas da República de Geovic, mas desistiu depois que seu pai desapareceu.

[Arturia]: - Tudo bem, tudo bem. Sem exagero, temos tempo. É quase madrugada mesmo.

[Otav]: - Sim, mas não quero me atrasar, Ester esperou por este momento há um bom tempo.

Eles deixam a casa de Arturia, uma casa simples, feita de madeira de algumas árvores derrubadas, a maioria das casas do vilarejo é assim. A população é composta por pescadores e camponeses, na maioria; sendo poucos que tem pequenos estabelecimentos, se sustentando de negócios próprios. O vilarejo é organizado por Qali, que é o mais velho do vilarejo, ele prometeu as pessoas que faria do vilarejo uma sociedade não comercial, todo mundo desempenharia sua função, e ninguém pagaria impostos.

***

Então eles se dirigem a casa da floriculturista da cidade. Outra casa simples, também de madeira de construção naval, porém com uma diferença: é toda decorada com flores.

[Otav]: - Lara, está com o buquê pronto?

[Lara]: - Sim, só um instante. Bom, na verdade, não... Ainda faltam as flores que Ester tanto gosta, tem um campo de flores aqui perto, elas têm pétalas brancas e o botão é amarelo, são fáceis de serem encontradas.

Lara, uma jovem sonhadora, possui um astral sempre em alta. Dona de uma simpatia magnética. Delicada como uma boneca de porcelana. Usa um vestido verde com detalhes brancos. Ela sempre gostou muito de flores. É amiga de infância de Ester e Arturia. Gosta muito de ler os rabiscos que Ester escreve, deve ser uma das pouquíssimas leitoras do vilarejo, levando em conta que pouquíssimos são privilegiados em conhecer a escrita. Ela ajuda seu pai com os medicamentos, seu pai é uma espécie de médico curandeiro do vilarejo, que trata as doenças das pessoas com ervas, plantas e outros tipos de medicamentos naturais. Ajudando seu pai, ela descobriu uma espécie de chá de um grão escuro, que ela diz combater seu sono e a deixa mais atenta.

[Otav]: - Vamos logo buscar então!

[Lara]: - Eu ainda não preparei os medicamentos que meu pai pediu. Vocês podem pegá-los por mim?

[Arturia]: - Otav, vamos logo, é perto daqui mesmo. Ela ainda tem outras coisas para fazer.

Eles deixam a casa de Lara, indo em direção ao portão principal do vilarejo, onde são interrompidos pelo porteiro.

[Porteiro]: - Onde vocês pensam que vão?!

[Otav]: - Só pegar algumas flores...

[Porteiro]: Certo, só não se distanciem muito do vilarejo. Em breve um vendaval chegará.

[Otav]: - Certo, sem problemas.

[Porteiro]: - Ah! Também não cheguem muito perto da praia, é muito perigoso em dias de vento forte.

[Otav]: - Sim, sabemos. Pode deixar.

***

Indo em direção aos campos, Arturia sente uma vertigem, um mal estar, diz que não é nada, que hoje está se sentindo estranha mesmo e logo, seguem com a caminhada. Chegando ao campo, Arturia fica em pé, apreciando um pouco das flores, enquanto Otav se afasta um pouco e pega algumas flores do campo.

[Otav]: - Devem ser estas. Pétalas brancas com botões amarelos.

Arturia parece ignorar Otav fazendo um comentário sem contexto.

[Arturia]: - Sensação estranha... Um pouco de nostalgia... Eu não estou me sentindo muito bem hoje... Podemos ir já?

[Otav]: - Sim, mas tenho uma coisa para te falar.

[Arturia]: - Hum.

[Otav]: - ...

[Arturia]: - Fale logo.

[Otav]: - Acho que te acordei cedo demais desta vez -- com um forte sorriso.

[Arturia]: - Oras, chega de demora, vamos logo...

Arturia vira o olhar em direção ao vilarejo e sua expressão muda drasticamente, sua face fica cheia de desespero.

[Otav]: - O que foi? Sua cara ficou pálida de repente.

[Arturia]: - Olhe em direção ao vilarejo.

Otav fica em pé, olha em direção ao vilarejo e vê uma grande nuvem de fumaça negra saindo de lá. Sua expressão passa de espanto para medo e depois fúria, em pouquíssimo tempo.

[Otav]: - Se o fogo se espalhar para as plantações a colheita do ano todo estará perdida.

O vento começa a ficar mais forte e eles começam a correr de forma desesperadora. Tudo que eles conseguem pensar é no vilarejo, quanto mais forte fica o vento, mais rápido se espalhará o incêndio.

***

Eles estão próximos do portão quando enxergam o porteiro desmaiado na entrada, coberto de sangue.

[Otav]: - Mas o que está acontecendo aqui?!

Arturia sem palavras só fica com o olhar fixo no porteiro caído ao chão.

[Otav]: - Arturia, não é hora para entrar em pânico! Temos que ver como estão os outros, vá ver como está tua família, eu irei ver a minha e Ester também. Vá!!!

Arturia sai sem dizer nada, mas antes deles se separarem, encontram com Qali, caído no centro do vilarejo. Por um breve momento, analisam sem tocar o corpo de Qali e enxergam ele ainda respirando. Tentam grosseiramente acordar Qali para saber o que se passa.

[Otav]: - Qali, não temos muito tempo. Está em condições de responder o que está acontecendo? Entramos em guerra? Não éramos um vilarejo pacífico?

[Qali, com uma voz ofegante, ainda engasgando com o sangue que escorre pela sua garganta]: - Não é uma guerra. Soldados, provavelmente enviados por Geovic, eles estiveram aqui...

[Otav]: - O que eles queriam?

[Qali, ainda mais fraco]: - Queriam levar uma moça loira, olhos claros... Levaram a Ester...

Então Qali perde a consciência e desmaia novamente. Enquanto os olhos de Otav se enchem de lágrimas e fúria. Eles correm até a casa de Ester, na qual só vêem a sua mãe, ainda acordada, com um sangramento na região do estômago.

[Otav]: - Você está bem?

[Nuiy, mãe de Ester]: - Não há tempo para mim, levaram Ester em direção à praia... Otav! Traga minha filha para casa, traga-a com vida!

Sem mais perguntas Otav deixa Nuiy no chão, pega Arturia pela mão e a conduz, correndo em direção a sua casa. Lá, ele pega uma espécie de lança, um arpão de pesca. Novamente, pega Arturia pela mão, começam a correr em direção à praia. A distância entre o vilarejo e a praia não é muito longa, há um caminho que passa por um pequeno trecho de pedras soltas na areia e algumas rochas maiores.

***

Próximos da praia eles vêem três soldados com Ester, de joelhos na areia, imobilizada pelo capitão daquela pequena tropa que mantém uma adaga no pescoço dela.

[Capitão]: - Esta não é ela, vamos logo nos livrar do peso morto e voltar para o forte.

[1º Soldado]: - E o que vamos dizer à Geovic?

[Capitão]: - Com Geovic, eu resolvo.

Neste instante, os soldados avistam duas pessoas se aproximando.

[2º Soldado]: - Capitão! Olhe! Não é ela quem a gente procura!?

[Capitão]: - Sim, é! Permita que eles percorram o caminho para a morte.

Agora eles estão perto o suficiente para ver Ester e os soldados. Arturia é tomada por um dor de cabeça horrenda, enquanto Otav é tomado por sua fúria.

[Otav]: - Então é assim que vai acabar Nilrem?!

Nilrem, abandonou o vilarejo ainda criança, aprendeu a combater desde cedo, é considerado como o “soldado prodígio”, Geovic diz que Nilrem é sua mão esquerda, sua mão de guerra. É habilidoso com todos os tipos de armas que possuam lâminas. Ele é alto, com cabelos castanhos, não usa um penteado muito formal. Não possui a fronte vistosa como Otav, mas aparenta ter uma força sobrenatural. É muito temperamental também e talvez tenha sido essa uma das causas dele abandonar o vilarejo. 

[Nilrem, o capitão dos soldados]: - Acabar?! -- dando uma enorme e sombria gargalhada -- É assim que começa. Não me leve a mal, Otav. Mas eu cumpro ordens. Você sabe bem como o exército funciona.

[Otav]: - Talvez esse tenha sido o motivo de eu desistir! Não nasci para ser cachorro de guerra! Entregue Ester, ela não tem nada a ver com isso!

[Nilrem]: - Receio que seja um pouco tarde pra ela. Mas você, ainda pode correr se quiser. Te dou esta chance.

[Otav]: - Não sou eu que tenho o hábito de virar as costas para as coisas que amo!

Enquanto isso o vento começa a ficar cada vez mais forte, assim como o mal estar de Arturia progride. Ela fica só parada na areia, à margem do mar, sem saber o que fazer numa situação como essa. As ondas começam a tomar tamanhos gigantescos, os outros soldados mal se mexem com medo de serem sugados para dentro do mar; Otav e Nilrem permanecem em fúria sem dar nenhuma atenção à força do vento.

[Arturia]: - Otav, não estou me sen...

Arturia pára de falar e começa a ouvir um som estridente - algo que se assemelha a um grito inumano - vindo do mar, ou de dentro da sua cabeça, ela não consegue distinguir. Por fim, o mar entra em fúria.

[Nilrem]: - Chega de conversas! Vamos acabar logo com isso! Soldados peguem a mulher, eu me encarrego de Otav.

Nilrem acerta um forte golpe na lateral da cabeça de Ester, deixando-a inconsciente na areia, e começa a correr em direção de Otav. Os soldados simplesmente ignoram a ordem de Nilrem e saem correndo da praia em direção do vilarejo para procurar abrigo, a tempestade perde o controle e é quase impossível se manter em pé, ou mesmo enxergar com tanta areia sendo jogada de um lado para outro.

[Arturia] – Não me-me sin-to b-e-m...

Arturia cai inconsciente na areia, agora estão somente Otav e Nilrem, um indo em direção ao outro. Quando o vento perde a força e uma última onda vem em direção à praia, esta, uma onda colossal, provavelmente irá chegar até o vilarejo. Otav finalmente olha para Arturia e a vê desmaiada na areia. Agora, ele percebe que se deixou dominar pela fúria e pensa que é tarde demais para salvar qualquer pessoa.

A onda cobre todo mundo, jogando todos com muita força na direção do vilarejo... Arturia foi sugada para dentro do mar. Otav não consegue mais avistar ela, muito menos Ester.



-- Fim, por enquanto...